Geral

Em questão de tempo o rap irá te envolver

Nasci em uma família de classe média, estudei em escola particular (e isso não é demérito) mas também cresci em um bairro periférico e lembro de quando eu tinha uns 10 anos, meus amigos já cantavam versos de um dos raps mais emblemáticos do Racionais MC’s: “Aqui estou, mais um dia. Sob o olhar sanguinário do vigia.”, mas em casa rap era coisa de marginal e cresci com essa semente nefasta na cabeça e sei que tem muita gente que também cresceu assim.

Fui crescendo com aquela ideia deturpada, marginalizando o desconhecido. Porque a verdade é que quando você é novo, te plantam uma ideia e você apenas aceita e não vai atrás de conhecer para ver se existe embasamento. Durante minha adolescência houve uma explosão de rap gringo nas rádios (Snoop Dogg, Dr. Dre, 50 Cent, Eminem e tantos outros) e comecei a perceber que muitas pessoas que falavam mal do rap nacional (complexo de vira-lata?) agora pagavam caro em um ingresso para ver os astros do rap estadunidense. Mas, e o rap nacional?

Em 2008 no meio de uma viagem com dois amigos conheci Trilha Sonora do Gueto, voltando da viagem comecei a procurar mais músicas deles, pouco depois um outro amigo me mostrou Facção Central e Ndee Naldinho. Racionais MC’s já conhecia mas nunca havia ouvido de verdade, coloquei pra tocar. A essa altura eu já conhecia pessoas de várias quebradas próximas de onde cresci (Pq. Bristol, Vl. Liviero, Jd. Maristela, Vila Brasilina, Jd. Climax, Moinho Velho, Heliópolis e assim vai) e quando você conhece gente de outros lugares, você acaba conhecendo outras ideias, outras histórias e começa a entender que o rap nacional simplesmente contava a história de vida desses caras. Porque se o cara tem dinheiro e mora num apartamento no Klabin ele não vai escrever sobre passar necessidade, sobre a vida na prisão e tudo aquilo que a sociedade despreza.

Em 2014 finalmente crio coragem para ouvir aquele que mais marginalizei quando novo, muito por conta das notícias de sua passagem: assassinado, envolvido e considerado. Ah o cara era bandido! Então abro o spotify e procuro o nome do cara: Sabotage! Eis que surge o “Rap é compromisso”(o mesmo álbum que ouço enquanto escrevo esse texto), aperto o play. E minha mente é invadida pelas letras e rimas frenéticas, só consigo pensar: Cara, o que é isso? Por que demorei tanto pra ouvir? e a resposta que tenho pra mim é que fui ouvir o som desse monstro quando eu estava preparado para entender que o cara cantava a vida dele. Se eu tivesse ouvido antes, talvez tivesse sido apenas mais um álbum ouvido e não O álbum!

No último dia 17 finalmente foi lançado o álbum póstumo. Foram anos de espera para todo fã de rap (pra mim foram apenas dois) poder apreciar as 11 faixas do álbum SABOTAGE, uma paulada na moleira atrás da outra, não sou crítico de música, produtor, nem famoso mas na minha opinião os caras do Instituto (Daniel Ganjaman, Tejo Damasceno e Rica Amabis) conseguiram superar o “Rap é Compromisso”, sonoridade, letras, as participações, o álbum todo é uma viagem e letras de 13 anos atrás parecem ter sido compostas ontem.

Meses atrás estava lendo a biografia do Sabotage (Sabotage – Um Bom Lugar escrito pelo Toni C). No dia em que comecei a ler fui a um bar no centro de SP e durante a noite colou um mano na mesa divulgando seu trabalho, me entregou um cd e falou que ia cantar uma das músicas era só eu escolher, escolhi Programado Pra Rimar música que dava nome ao disco, antes dele começar soltou: “essa eu canto em homenagem a Mauro Mateus dos Santos (Sabotage)”. Nem precisava mais cantar, comprei o cd e conheci mais um rapper de talento: Doiz D.

Se eu não tivesse mudado meu pensamento e corrido atrás de entender o que é o RAP de verdade talvez nem tivesse dado atenção pra um moleque colando na mesa do bar, e com certeza muitos fazem isso, pelo simples fato do preconceito intrínseco na sociedade.

Então se você ainda está no primeiro estágio do meu texto (tendo preconceito sem ao menos tentar entender como/onde/porque (aquela palavra que ta na moda hoje: empatia) de determinado artista compor uma letra que foge do que você entende por mundo) pare e pense, faça uma análise e não marginalize quem já é marginalizado. Abra sua mente e quem sabe assim você também comece a desfrutar de sons que nasceram na quebrada: Rap, Funk*, Reggaeton, Cúmbia e os ritmos que ainda virão pela frente.

Sim, existe talento e música de qualidade na quebrada!

*Uma funkeira participando de um show do Andrea Bocelli? Quebrando preconceitos isso não será mais surpresa.

Se tiver interesse em sair da casinha, dá o play:

Doiz D – Programado pra Rimar

Sabotage – Sabotage

Outros projetos legais: Rap em Cartaz e Coletivo Quebramundo

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